quarta-feira, dezembro 26

O vício não está nas coisas

"O vício não está nas coisas, está na própria alma. O mesmo defeito que nos faz achar insuportável a pobreza também faz com que achemos a riqueza. Podes deitar um enfermo em um leito de madeira ou num leito de ouro, não há alteração, por onde quer que o leves ele levará consigo a sua enfermidade; do mesmo modo nada de altera se uma alma doente viver na riqueza ou na pobreza; o seu vicio irá segui-lo sempre."

Seneca, Cartas a Lucílio

O imperativo da Fortuna *

" Pois eis que um povo domina, outro sucumbe conforme os caprichos da Fortuna, serpente que na relva da campina se esconde. Contra ela, de nada valem o vosso poder e vosso querer; (...) Vai provendo as suas mudanças sem cessar jamais, pois ser veloz é o imperativo da Fortuna. É por isso que, no mundo, a sorte muda tão rapidamente. Tal é a Fortuna, amiúde insultada com censuras injustas, mesmo por aquele que teriam razões para louvá-la. Feliz, porém, nada disso ela escuta. Primitiva como as criaturas originais, basta-lhe ser como é."

Dante, A Divina Comédia, Canto 7

* fortuna
do Lat. fortuna, sorte
s. f.,
divindade que, na crença dos antigos, fazia, a seu capricho, a felicidade ou a infelicidade;
o que sucede por acaso;
azar;
destino;
sorte;
ventura;
revés da sorte;
sucesso;
êxito;
riqueza, haveres.

Da Fragilidade

"De tudo que a terra produz, o homem é o mais frágil, mas frágil de todos os que respiram, mais frágil que répteis"

Homero, A Odisséia, Canto 18

terça-feira, dezembro 18

É contra mim que luto

É contra mim que luto.

Não tenho outro inimigo.

O que penso, o que sinto,

o que digo, e o que faço,

é que pede castigo

e desespera a lança no

meu braço.

Absurda aliança de

criança e adulto,

o que sou é um insulto

ao que não sou;

e combato esse vulto que

à traição me invadiu e me

ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,

peço à vida outra vida,

outra aventura,

outro incerto destino.

Não me dou por vencido,

nem convencido.

E agrido em mim o homem e o menino.

Miguel Torga

Sobre o(a) autor(a):
Pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha (1907-1995), português.
Formado médico, este escritor passeou pela poesia, prosa, ficção, drama e fez um romance autobiográfico.
Escritor independente, sem escola.

sexta-feira, novembro 30

De quem é a culpa?

" Os homens costumam incriminar os deuses. De nós, dizem, vêm os males. Não consideram que eles padecem aflições causadas por desmandos próprios "

Homero, A Odisséia, Canto 1, Zeus se dirigindo aos outros deuses

Os Vaidosos

“Somos como vitrines de lojas, onde passamos nosso tempo a arrumar, a esconder, a colocar em evidência as pretensas qualidades que os outros nos concedem – para enganarmos a nós mesmos”

Nietzsche, Aurora

sexta-feira, novembro 9

O DELÍRIO

Post longo...mas vale cada linha.



QUE ME CONSTE, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta
minutos.
Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de S. Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.
Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me
parecia sem destino.
- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos.
Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a
estes dous quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me
pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planícia branca de neve, e vários
animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta:
-Onde estamos?
-Já passamos o Éden.
- Bem; paremos na tenda de Abraão.
-Mas se nós caminhamos para trás! Redargüiu motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois - cogitações do enfermo - que chegássemos ao fim indicado, não era possível que os séculos, irritados com lhes devassem a
origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim. Olhar somente; nada
vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me parecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das
cousas ficara estúpida diante do homem.
Caiu do ar? Destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.
-Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.
-Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela
vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo.
-Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para
certificar-me da existência.
-Sim, verme, tu vives. Não receies perder andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver. Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.
Entendeste-me ? disse ela, no fim de algum tempo de mútua
contemplação.
-Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade, que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza tu? a Natureza que
eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?
-Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?
- Sim; o teu olhar fascina-me.
- Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.
-Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia. a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?
-Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?
- Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas
as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros,
eu via tudo o que passava diante de mim,-flagelos e delícias, desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia a indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem e cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.
Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, - de um riso descompassado e idiota.
-Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena, - talvez monótona mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima O espetáculo.
Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida? mas digere-me.
A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: "Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade." E fixei os olhos, e continuei a ver as idades que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás deles os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante! cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vistas ia enfim ver o último, - último!; mas então já a
rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tudo,- menos o hipopótamo que ali me
trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...


Machado de Assis, CAPÍTULO VII / O DELÍRIO das MEMORIAS POSTUMAS DE BRAS CUBAS

sábado, novembro 3

A Cidade, a maior ilusão !

"A Cidade, a maior ilusão! Certamente, meu príncipe, uma ilusão! E a mais amarga, porque o homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e a beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido, escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trêmulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda - esse ser que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto, rijo e nobre Adão! Na Cidade findou sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade e cada necessidade o arremessa para uma dependência; pobre e subalterno, sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior, a socidade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel.... A sua tranquilidade, onde está meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam a arquejante ocupação de desejar - e que nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; adiante obriga a flanejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera ester vastos armazéns com espelhos, onde a nobre Eva se vende, tarifada ao arrétel, como a de vaca! Contempla esse velho deus do himineu, que circula trazendo em vez do odeante facho da paixão a apertada carteira do dote! Espreita essa turba que foge dos largos caminhos assoalhados em que o faunos amam as ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos lôbregos de Sodoma ou de Lesbos! ....Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a inteligência, porque lhe arregimenta dentro da banalidade ou lhe empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de idéias e formas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já expremidas - ou então , para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um monstrengo numa feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas pisadas; e alguns são macacos, saltando do topo dos mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão anti-natural onde o solo é de pau, feltro e alcatrão, o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente estrião...E aqui tens, belo Jacinto, o que é a bela Cidade! "

Eça de Queiroz, As Cidades e as Serras

Escanifrado - magro, seco.

Unto - gordura, banha.

Cangalhas - óculos, em sentido figurado.

Chinós - Cabeleiras postiças, perucas.

Arrátel - peso antigo, equivalente a 459 gramas

Himineu - primitivamente este termo indicava um poesia ou hino nupcial, muito usado entre os gregos e os romanos; por extensão passou a signifcar núpcias, casamente e união.

Faunos - divindades campestres romanas; tinham corpo humano mas chifres e pés de bode.

Ninfas - divindades secundárias femininas representantes da força que preside à reprodução e a fecundidade das naturezas vegetal e animal; gozavam do privilégio da juventude eterna.

Sodoma - antiga cidade da palestina, que segundo o Antigo Testamento foi destruída pelo fogo do céu, por caus da depravação e imoralidade dos seus habitantes.

Lesbos - ilha grega, no mar Egeu, pátria de Safo, poetisa grega do século VI a.c., que teria sido sacerdotisa das práticas lesbianas.

Esgares - trajetos, caretas, macaquices.

Cabriolas - Cambalhotas.

Hestrião - literalmente: ator cômico, palhaço; figuradamente homem vil, charlatão.

sábado, outubro 27

O pensamento e a liberdade

"À primeira vista, nada parece mais ilimitado do que o pensamento humano, que não só escapa de todo poder e autoridade humana, mas não se restringe sequer aos limites da natuteza e da realidade. Formar monstros e ligar formas e aparências incongruentes não custa mais trabalho à imaginação do que conceber os objetos mais naturais e familiares. E, embora o corpo esteja preso a um planeta sobre o qual se arrasta com dor e dificuldade, o pensamento nos pode transportar no espaço de um instante às mais longíquas regiões do universo - e mesmo além do universo, no caos sem fronteiras, em que se diz que a natureza jaz em total confusão. É possível conceber o que nunca foi visto ou ouvido, e não há nada que não alcance o poder do pensamento..."

David Hume, Investigação sobre o entendimento humano.

domingo, outubro 14

Exemplo de causa e consequencia

"Ao acrescentarmos gases estufas ao ar e substituirmos ecossistemas naturais como florestas, por terra cultivável, lançamos sobre a Terra um golpe duplo: estamos interferindo na manutenção da temperatura, ao aumentarmos o calor, e, ao mesmo tempo, removendo os sistemas naturais que ajudam a regulá-la. O que estamos fazendo agora se assemelha estranhamente à sucessão de ações insensatas que levaram ao acidente do reator nuclear de Tchernobil (...) Não deveria ter sido surpresa o rápido superaquecimento do reator, até pegar fogo. "

A Vingança de Gaia, James Lovelock

sábado, setembro 29

Mozart assassinado e a estranha máquina de entortar homens

"Sentei-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado

Voltei para o meu carro e pensava: essa gente quase não sofre seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata de se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não com o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.

O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É o Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens

Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o homem. "

Antoine de Saint Exupéry, Terra dos Homens

Absurdos pequenos domingos

"A verdade não é o que se demonstra, é o que simplifica. De nada vale discutir ideologias: se todas se demonstram, todas também se opõe, e tais discussões fazem desesperar da salvação do homem. Isto quando o homem, em toda parte, ao redor de nós, expõe as mesmas necessidades. Queremos ser libertados. O que dá com uma enxada no chão quer saber o sentido dessa enxada. E a enxada do forçado, não é amesma enxada do lavrador, que exalta o lavrador. A prisão não está onde se trabalha com a enxada. Não há o horror material. A prisão está onde o trabalho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade dos homens. E nós queremos fugir da prisão."

"Não compreendo mais essas populações dos trens de subúrbio, esses homens que pensam que são homens e que entretanto estão reduzidos, por uma pressão que eles mesmos não sentem, como formigas, ao uso que deles se faz. Como enchem eles, quando estão livres, seus absurdos pequenos domingos?"

Antoine de Saint Exupéry, Terra dos Homens

segunda-feira, setembro 24

Vivendo ao acaso

“Como é estreito o cenário em que se representa a peça dos ódios, das amizades, das alegrias humanas! De onde foram tirar os homens esse gosto de eternidade, vivendo ao acaso, como vivem, sobre uma larva ainda morna, já ameaçados pelas neves ou pelas areias do futuro? Suas civilizações são enfeites bem frágeis: um vulcão as apaga, ou um mar novo, ou um vento de areia...”

 

Antoine Saint Exupéry, Terra dos Homens

domingo, setembro 23

Omnis festinatio ex parte diaboli est

"Tanto nossa alma como nosso corpo são compostos de elementos que já existiam na linhagem dos antepassados. O "novo" na alma individual é uma recombinação, variável até o infinito, de componentes extremamente antigos. Nosso corpo e nossa alma tem um caráter eminentemente históricos e não encontram no "realmente-novo-que-acaba-de-aparecer" lugar conveniente, isto é, os traços ancestrais só se encontram parcialmente realizados. Estamos longe de ter liquidado a Idade Média, A antiguidade, O primitivismo e de ter respondido as exigências de nossa pisique a respeito deles. Entrementes, somos lançados num jato de progresso que nos empurra para o futuro, com uma violência tanto mais selvagem quanto mais nos arranca de nossas raízes. Entretanto, se o antigo irrompe, é frequentemente anulado e é impossível deter o movimento para frente. Mas é precisamente a perda da relação com o passado, a perda das raízes, que cria um tal "mal-estar na civilização", a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas de idade de ouro, do que no presente, que o futuro da evolução histórica ainda não atingiu. Precipitamo-nos desenfreadamente para o novo, impelidos por um sentimento crescente de mal-estar, de descontentamento, de agitação. Não vivemos mais do que possuímos: porém de promessas; não vemos mais a luz do dia presente: porém perscrutamos a sombra do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não queremos entender que o melhor é sempre compensado pelo pior. A esperança de uma liberade maior é anulada pela escravidão do Estado, sem falar dos terríveis perigos aos quais nos expõem as brilhantes descobertas da ciência. Quanto menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmo, e contrbuímos com todas as forças para arrancar o indivíduo de seus instintos e de suas raízes: transformado em partícula da massa, obedecendo somente ao que Nietzsche chamava de "espírito da gravidade".

É evidente que as reformas orientadas para frente, isto é, por novos métodos ou gadgets, trazem melhorias imediatas, mas logo se tornam problemáticas e ainda por cima custam muito caro . Não aumentam em nada o bem-estar, o contentamento, a felicidade em seu conjunto. Na maioria das vezes são suavizações passageiras da existência, como por exemplo, os processos de economizar tempo, que infelizmente só lhe precipita o ritimo, deixando-nos assim, cada vez, menos tempo. "Omnis festinatio ex parte diaboli est" (toda pressa vem do diabo), costumavam dizer os antigos mestres."

Carl Jung - Sonhos, Memórias e Reflexões

sábado, setembro 22

Melhor ser vil do que por vil ser tido....

"Melhor ser vil do que por vil ser tido,
Quando se acusa a quem não é de o ser;
E um justo prazer morre, envilecido,
Não por nós, mas por quem assim quer ver.
Por que um olhar adulterado iria
Louvar-me o sangue de impulsivo tom,
Ou se sou fraco, algum mais fraco espia,
Vir dar por mau o que eu pretendo bom?
Não, sou o que sou; quem achar iníquos
Os meus abusos, fala pelos seus:
Posso ser reto, já que são oblíquos,
Não vê a mente espúria os feitos meus;
A menos que a sentençca seja vera,
De que todos são maus e o mau impera."


Shakespeare, Soneto 121

segunda-feira, setembro 17

Na prisão

Minha vista, quer seja aguda, quer seja fraca, não vê senão a certa distância. Vivo e ajo neste espaço, essa linha do horizonte é meu próximo destino, grande ou pequeno ao qual não posso escapar

 

Nietzsche, Aurora, Na prisão

 

 

domingo, setembro 16

Papo furado

" Quando caracterizamos uma conversa como papo furado, queremos dizer que o que sai da boca do falante é apenas isso. Mero vapor. A fala vazia, sem substância ou conteúdo. O uso da linguagem não contribui, portanto, para o propósito que pretende servir. Nenhuma informação é comunicada, como se o falante tivesse apenas exalado. A propósito, há certas semelhanças entre o papo furado e o excremento que fazem papo furado parecer um equivalente especialmente apropriado de falar merda. Da mesma forma que o papo furado é uma fala que foi esvaziada de todo o seu conteúdo infomativo, excremento é matéria da qual foram removidos todos os nutrientes. Ele pode ser visto como o cadáver dos nutrientes, o que resta quando os elementos vitais da comida foram exauridos. Desse ponto de vista, o excremento é uma representação da morte que geramos e, na verdade, que não podemos impedir de gerar no processo de manutenção de nossa vida. Talvez seja por tornarmos a morte tão íntima que consideramos o excremento repugnante. "

Sobre falar merda, Harrey G Frankfurt

quarta-feira, setembro 12

Porque tudo que eu gosto é imoral, ilegal ou engorda?

 

“ O homem livre é imoral, porque em todas as coisas quer depender de si mesmo e não de uma tradição estabelecida: em todos os estados primitivos da humanidade, mal é sinônimo de individual, livre, arbitrário, inabitual, imprevisto e imprevisível

 

Nietzsche, Aurora, Conceito da moralidade dos costumes

quinta-feira, setembro 6

O último dos réprobos

“Quem ousaria, portanto, lançar um olhar no inferno das angústias morais, as mais amargas e mais inúteis, onde provavelmente definharam os homens mais fecundos de todos os tempos! Quem ousaria escutar os suspiros dos solitários e dos transviados: ah! Dêem-me ao menos a loucura, poderes divinos! Dêem-se delírios e convulsões, horas de claridade e de trevas repentinas, aterrorizem-me com arrepios e ardores que jamais mortal algum experimentou, cerquem-me de ruídos e de fantasmas! Deixem-me uivar, gemer e rastejar como um animal: contanto que adquira a fé em mim mesmo! A dúvida me devora, matei a lei, sou o último dos réprobos.”

 

Nietzsche, Aurora, Significação da loucura na história da humanidade.

terça-feira, setembro 4

Girinos otimistas

 

(...) Ah, essa boa gente tão zelosa e saudável sempre me dá a impressão daqueles girinos otimistas que, confinados em uma poça de água de chuva, agitam alegremente a cauda ao sol, sem pensar que no dia seguinte a água rasa secará

 

Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões

terça-feira, agosto 28

terça-feira, agosto 14

Nossa importância ...

"Quando os humanos partirem, entre os benificiários diretos de nossa ausência estarão os mosquitos. Apesar de nossa lisojeira visão antropocêntrica do mundo nos fazer pensar que o sangue do homem é essencial para sobrevivência deles, eles de fato são versáteis gourmets, capazes de jantar nas veias da maioria dos mamíferos de sangue quente, de répteis de sangue frio e até de pássaros. Na nossa ausência, supõe-se que inúmeras criaturas selvagens e ferozes corram para preencher a lacuna que deixamos e construir ninhos nos espaços abandonados. Seu número, não mais determinado por nosso tráfico letal, deverá se multiplicar com tal naturalidade que a biomassa total da humanidade (que o eminente biólogo E.O Wilson estima que não encheria o Gran Canyon) não faria falta por muito tempo."

O mundo sem nós, Alan Weisman

O Homo Sapiens construindo o mundo...

"Exceto por uma pequena quantidade que tem sido incinerada, toda partícula de plástico fabricada no mundo nos últimos 50 anos ainda existe. Está em algum lugar no ambiente. A produção total desse meio século ultrapassa 1 bilhão de toneladas. Isso inclui centenas de plásticos diferentes, com permutações desconhecidas envolvendo plastificantes aditivados, opacificadores, pigmentos, produtos para enchimento e para aumento de resistência e estabilizadores leves. A longevidade de cada um pode variar enormemente. Até agora, nenhum desapareceu. Pesquisadores tentaram descobrir quanto tempo levaria para o polietileno biodegradar, incubando uma amostra numa cultura viva de bactérias. Um ano depois, menos de 1% tinha desaparecido"


O mundo sem nós, Alan Weisman

sexta-feira, agosto 3

Nesta terra que não é terra ...

 “Nesta terra que não é terra, a visão estremece com a sucessão de cores, e a vestimenta onírica das pessoas parece especificamente destinada a desnortear o transeunte, com suas bizarras formas geométricas, pó-de-arroz e seios descobertos, penteados fantásticos e calçados incríveis. Provocam alucinadas emoções e sobressaltos em cada rua, acompanhados de repentinos ataques de ira, que parecem tão do agrado dos habitantes singulares desta cidade de outro mundo. Nesta terra que não é terra, a força das mulheres modifica o curso dos acontecimentos, impõe desvios repentinos na cansada razão masculina, confirma em minha mente uma sensação profunda, já experimentada várias vezes em outros lugares, quanto às virtudes superiores que elas possuem, fruto de recursos aos quais nos é negado o acesso.”

 

Q O Caçador de Hereges, Lutther Blissett

sexta-feira, julho 27

Apocalipse Now!

“Além daquele mar o Apocalipse* surge toda manhã, junto com o sol. Não olhe para trás, não permaneça prisioneiro da sua história.Tome o mar, corte as amarras que o pregam à terra, mantenha a mente na proa e zarpe. Zarpemos. Um mundo acaba, um outro começa, este é o Apocalipse e nós estamos no meio. “

*do Gr. apokálypsis, acção de descobrir, (fig.) revelação

Q: O caçador de Hereges, Lutter Blissett.

sexta-feira, julho 6

O Trabalho...

" Ganhar o próprio pão é realmente cansativo e triste. O homen inventa piedosas mentiras a respeito do trabalho. Eis outra e abominável idolatria, o cão que lambe a bengala: o trabalho. "

Q : Caçador de Hereges, Luther Blissett

sexta-feira, junho 22

A arma do gerreiro sem braços

(...) Fortes e destemidos, parecem homens indomáveis, conforme vêm demonstrando na guerra que sustentam contra os espanhóis há 40 anos, sem parar. Para confirmar isto, vou apresentar apenas duas provas entre as muitas que me deram. Uma é de um capitão-índio aprisionado pelos espanhóis.

O capitão índio era muito famoso por ter cumprido seu dever com distinção no combate à invasão pelo inimigo europeu. Um dia, os espanhóis conseguiram feri-lo e capturá-lo. Em seguida, cortaram-lhe as mãos com a intenção de incapacitá-lo para a luta. Ele resistiu. Arrancaram-lhe os braços. Depois soltaram-no , para que os outros viessem a que se expunham se não se submetessem. O índio voltou para casa, com um desejo mortal de vingança por seus ferimentos. Mesmo sem as mãos, não descansou nem um minuto. Passou a usar a língua para defender a liberdade de sua nação e continuou lutando como sempre.

No meio dos combates, ele ajudava a expulsar os espanhóis recitando palavras de estímulo, incitando seus irmãos a não recuar, a não deixar os outros avançarem, nem mesmo sobre os seus cadáveres e, se necessário, a botar fogo na mata. Para o índio-capitão sem mãos, lutavam para manter as leis e valores a que estavam acostumados, os hábitos cultivados, aprendidos e ensinados por seus antepassados.

Acusando o inimigo de covarde, demonstrava a crueldade a que ficariam expostos, caso se rendessem, mostrando seus braços decepados na metade. O índio levantava os toquinhos que lhe restavam nos ombros e apontava para o seu irmão mais próximo, de quem tinham cortado meio pé, para que nunca mais conseguisse se firmar no lombo de um cavalo.

Para ele o inimigo fazia o que queria, porque estava convencido do medo dos nativos. Se os índios pagassem com a mesma moeda, arrancando os olhos ou cortando as pernas dos soldados, o inimigo pensaria duas vezes antes de voltar a agir com tamanha desumanidade. O capitão-índio repetia que o medo é o melhor parceiro da covardia.

Assim, o índio sem mãos passou a liderar seus companheiros durante as batalhas. Encorajava-os a lutar pelas suas vidas, pernas e braços. Elogiava e enaltecia os que tombavam feridos. Dizia ser preferível morrer um homem livre do que levar uma vida de servidão indigna, dando todo o fruto do seu suor para enriquecer os nobres...


A Viagem do Pirata, E. San Martin, Relato de Richard Hawkins, corsário de Sua Majestade a Rainha da Inglaterra durante sua viagem a costa do Chilhe 1593/1594.

terça-feira, maio 22

CASANOVA 2

" (...) gracias a mis gustos bastos, me creo más feliz que otros, puesto que estoy convencido de que gracias a ellos puedo gozar de mayores placeres. Felices aquellos que, sin hacer daño a nadie, saben conseguirlos, e insensatos los que se imaginan que el Ser Supremo pueda celebrar los dolores, las penas y las abstinencias que les ofrecen como sacrificio, y que solo ama a los extravagantes que se las imponen. Dios no puede exigir a sus criaturas sino la práctica de las virtudes cuyo germen Él ha colocado en su alma, y no nos ha dado nada cuyo fin no sea hacernos felices: amor propio, ambición de alabanzas, sentimiento de emulación, fuerza, valor, y una facultad de la que nada puede privarnos: la de matarnos si, tras un cálculo, acertado o erróneo, tenemos la desgracia de considerar que ello nos conviene. Esta es la prueba más sólida de nuestra libertad moral, que tanto ha combatido el sofisma."

LAS MEMORIAS DE CASANOVA. Escritas entre 1790-1798
(Incluido sólo el Prefacio)

CASANOVA 1

" (...) El hombre es libre, pero deja de serlo si no cree en su libertad; y cuanto más fuerte supone al destino, tanto más se priva de la fuerza que Dios le ha concedido al dotarle de razón. La razón es una pequeña parte de la divinidad del Creador. Si la empleamos para ser humildes y justos, no podemos sino complacer a aquel que nos la dio. Dios no deja de ser Dios sino para aquellos que conciben su no-existencia como posible; y esta concepción ha de ser para ellos el mayor castigo que puedan sufrir. A pesar de que el hombre es libre, no por ello debemos creer que sea dueño de hacer cuanto le viene en gana; porque se hace esclavo cuando se deja arrastrar a la acción, cuando una pasión le domina. Aquel que tiene la fuerza de dejar en suspenso la acción hasta que retorna la calma, es el verdadero sabio; pero tales seres son raros. "

LAS MEMORIAS DE CASANOVA. Escritas entre 1790-1798
(Incluido sólo el Prefacio)

terça-feira, maio 15

Renovatio !

" A natureza mortal procura, na medida do possível, ser eterna e imortal. E ela só o pode ser por êsse meio, a reprodução, pela qual sempre substitui o velho por outro novo; tanto é assim que, no termo viver quando aplicado a cada um dos sêres animados, está implícito que ele permanece o mesmo; por exemplo, diz-se que uma pessoa é a mesma da infância a velhice;embora jamais conserve em si os mesmos atributos, diz-se que é a mesma; todavia, com algumas perdas, está sempre se renovando, nos cabelos, na carne, nos ossos, no sangue, em todo seu corpo. Isso acontece não só segundo o corpo, mas também segundo a alma; os modos, o caráter, as opiniões, os desejos, os prazeres, as dores, os receios, nenhuma dessas particularidades é sempre a mesma em cada pessoa, mas umas nascem, outras perecem. Ainda muito mais desconcertante que isso tudo é que também os conhecimentos mudam; não só uns nascem outros perecem em nós e não somos jamais os mesmos nem em nossos conhecimentos, mas até cada um dos conhecimentos passa por igual mutação. (...) Desta maneira se preserva o que é mortal; não como o divino, pela absoluta constância do seu ser, mas pela substituição do que envelheceu e se foi, por outro novo, semelhante ao que havia."

Diálogos, Platão, O Banquete

sábado, abril 28

O que é relativo?

" A maioria das coisas que buscamos, senão a maioria das coisas que evitamos, são opcionais. O valor que têm para nós depende de nossas metas, projetos e preocupações individuais, inclusive a preocupção particular que temos por outras pessoas e que reflete nossa relação com elas; só adquirem valor por causa do interesse que desenvolvemos por elas e do lugar que isso lhes concede em nossas vidas; não é que despertem nosso interesse pelo valor que tem."

Thomas Nagel, Visão a Partir de Lugar Nenhum

segunda-feira, abril 16

Sobre o estranho e os monstros

" O que denominamos monstros não o são perante Deus, pois só Deus distingue e aprecia, na imensidade de Suas obras, as formas infinitas que imaginou. É provável que tal ou qual que nos espanta se prenda a outra do mesmo gênero, desconhecida do homem e que no entanto d´Ele provenha. Tudo o que emana de Sua infinita sabedoria é belo e decorre de leis gerais; mas, as relações dessas coisas entre si e sua ordenação escapam-nos.[ o homem não se admira com que vê amiúde, ainda que lhe ignore a origem; mas se ocorre o nunca viu, considera-o um prodígio - Cícero] Dizemos do que vemos habitualmente que é contrário a natureza; tudo, entretanto, obedece 'as suas leis. A razão universal e natural deve pois expulsar de nós a surpresa que a novidade provoca."

Montaigne, Ensaios, A propósito de uma criança monstruosa

sábado, março 24

Do que só pode florescer quando é livre e espontâneo

"Nunca me liguei a grande ceita,
Cuja a doutrina é: escolhe tua eleita,
Dentre a multidão, para amiga ou amante,
E todas as outras, mesmo a bondosa, e a brilhante,
Esquece de vez; seja êste o código, embora,
Da moral moderna e estrada a fora,
Dos pobres escravos, a passos tardos percorrida,
Que vão para casa, entre a massa falecida,
Pelos amplos caminhos do mundo, e desta forma azada,
Levando da corrente o amigo, ou talvez a inimiga malvada,
Cobrem a mais longa e penosa caminhada"

Percy Bysshe Shelley

Citação do livro de Bertrand Russell,
O Casamento e a Moral

domingo, março 18

Sobre o mal uso do verbo precisar e desejar ...



Desejos e necessidades

" (...) Pois no nosso globo temos cerca de mil sentidos, e resta-nos ainda não sei que de vago desejo, não sei que de inquietação, que incessantemente nos adverte do pouco que nós somos e de que existem seres muito mais perfeitos. Tenho viajado um pouco; vi mortais muito abaixo de nós; vi-os muito superiores; mas nenhum que não tivesse mais desejos que verdadeiras necessidades, e mais necessidades que satisfação. Talvez chege um dia ao país onde não falte nada; mas desse país até agora ninguém me deu notícias. "

Voltaire, Micromegas

terça-feira, março 13

Sem sentido

Então tudo começa

Meus olhos encontram o absurdo.

Pseudo urgências fazem alarde.

Levantei-me sem ter sentido.

O espelho ofereçe-me seu logro.

A consistência fluida da água corrente me escapa por entre os dedos.

Perdi no ralo da pia os propósitos, os motivos e os objetivos.

Abro a armário e escolho uma fantasia.

Mastigo mecanicamente algo com gosto de nada.

Saio sem ter sentido.

Acendem-se as luzes, abrem-se as cortinas do mundo.

Tudo se move mas não se desloca.

Sim ouço a música, mas onde está o maestro?

Todos tocam a esmo.

Busco meu lugar na orquestra, olho a partitura.

Não entendo,

Para mim parece sem sentido.

quarta-feira, março 7

Nem a ternura fulgaz desses belos olhos, nem os ruídos da rua, nem a claridade titubeante do amanhecer!

 Cada instante só surge para trazer os que se seguem. Apego-me a cada instante com todo o meu coração: sei que é único; insubstituível, e no entanto não faria um gesto para impedi-lo de se aniquilar. Esse último minuto que passo em Berlim, em Londres, nos braços de uma mulher que conheci na antevéspera, minuto que amo desesperadamente, vai terminar eu sei.  Não tornarei a encontrar essa mulher, nem essa noite nunca mais. Debruço-me sobre cada segundo, tento esgotá-lo; nada se passa que eu não capte, não fixe para sempre em mim, nada, nem a ternura fulgaz desses belos olhos, nem os ruídos da rua, nem a claridade titubeante do amanhecer: e no entanto o minuto se esgota e não o retenho, gosto que passe

A NÁUSEA

Jean Paul Sartre

sexta-feira, fevereiro 23

Sombras a beira do caminho...

" E nós somos tímidas sombras à beira do caminho, envergonhando-nos da segurança de sombras que gozamos"

sexta-feira, fevereiro 16

Lembranças do mar, do deserto e a eternidade...

" (...) Deserto marulhante , sob a cúpula de um pálido céu cinza, ó ermo impregnado de acre umidade cujo sabor perdura em nossos lábios! Caminhamos, caminhamos sob o solo levemente elástico, salpicado de sargaço e de pequenas conchas. O vento nos envolve os ouvidos, esse vento imenso, vasto, brando, que livremente, sem freio nem maldade, atravessa o espaço e produz em nosso cérebro um ligeiro atordoamento. Marchamos, marchamos, e vemos os nossos pés lambidos pelas línguas espumantes do mar, que é impelido para frente e, fervilhando, torna a recuar. Agita-se a arrebentação. Vaga após vaga, com um murmúrio agudo e surdo, choca-se com a terra, antes de deslizar, sedosa pela praia rasa. Aqui se dá o mesmo como ali e como nos bancos de areia, lá fora, e esse rumor confuso, generalizado, do suave marulho, sobrepuja, em nossos ouvidos, todas as demais vozes do mundo. Bastamo-nos a nós mesmos e de propósito ouvidamos o resto...Ah, cerremos os olhos, abrigados na eternidade! Não! Olha ali! Naquela vastidão glauca, espumante, que, com enormes escorços, se perde no horizonte, surge uma velha. Ali? Que significa esse "ali"? Quão longe? Quão perto? Não sabes dizer. De modo vertiginoso, isso se subtrai a tua avaliação. Para computar a distância que separa esse navio da praia, deverias saber qual seu tamanho. Pequeno e próximo? Grande e longínquo? Tua vista turva-se em dúvida, pois nenhum dos orgãos e dos sentidos que possuis te informa sobre o espaço. Caminhamos, caminhamos...Desde quando? Até onde? Tudo incerto. Nada se modifica, por mais que avancemos. O "Ali" é igual ao "aqui", o passado é idêntico ao presente e ao futuro. Na imensa monotonia do espaço afoga-se o tempo. Onde reina a uniformidade, o movimento de um ponto a outro deixa de ser movimento. Onde isso acontece, já não existe tempo."

Thomas Mann
A Montanha Mágica, pg729

terça-feira, janeiro 30

Meias na janela!

Excelente texto de uma amiga querida.

Dre, um beijo.

...Meias na janela!

Andressa Bello

Um dia cinza, mas não triste. Digamos que mais um dia para se pensar na vida - minha mãe dizia para eu pensar mais, antes de agir... Creio que eu não deveria. Quando penso demais, as bobeiras são menores que os arrependimentos! - fazer uma xícara bem açucarada de chocolate e embaçar com a fervura do leite a janela...

Lembrar das coisas mais idiotas que só o ser humano consegue fazer. Não, porque nós pobres e imploráveis bípedes somos capazes de fazer coisas imbecis até quando estamos dormindo, como o que, por exemplo??? Rolar e cair da cama, falar enquanto se dorme e o pior delas... Roncar!

Mas mesmo com as ações mais criticas, tentamos ser melhor... Comicamente "perfeitos". Sonhamos em ser, em ter e fazer tudo como um sonho... Ah bolinhas de sabão...! Mas pelo menos se chamar de virtuosos... E porque não??? Somos sim (e ponto).

Mas é tão bom sonhar acordado, assim a gente sente cheiro, gostos e ainda vê cores. Deseja ser hoje uma erva venenosa ou algodão doce na mão de uma criança.Ou quem sabe um pena para voar solta por aí ou uma na mão de alguém para fazer cócegas no pé de alguém. Na verdade não deixar de ser, fazer e ter desejos.

Entre um gole e outro, queimando o céu da boca e sentindo que o açúcar da bebida vai ficando mais acentuado, não perdemos os regalos da vida... Deixando o pensamento vagar no quase nada, o que eu acho impossível nunca se pensar nesse "nada”, fazendo projetos e planos - tudo como já havia ensinado minha mãe - vou pendurando minha meia na janela. Afinal, no fim do ano o tão esperado Papai Noel passará e deixará minhas dádivas de esperança para começar um outro ano sem habilidades raras de idiotice... (Ai! Lembrei que tenho que fazer as simpatias de virada de ano... Senão já era um Feliz Ano Novo...!).