Quinta-feira, Dezembro 3
Tu tremes com medo do que nunca virá
Domingo, Setembro 27
Desse turbilhão tamanho!
Me tirou som doce e antigo,
Com felizes eco de antanho
Crenças infantis iludindo,
Maldigo hoje tudo o que enreda
A alma em falsa sedução
E com lisonja a cega e encerra
Neste antro de desolação.
Maldita seja a douta opinião
Em que a si próprio o espírito se enleia!
Maldita da aparência a ilusão
Que todos os sentidos incendeia!
Maldito o que no sonho é hipocrisia
Da glória o logro, e dos nomes afamados!
Maldita a posse, que nos lisonjeia,
De mulher, filhos, charrua, criados!
Maldito seja Mamon e o ouro
Com que nos leva ações desvairadas,
E nos entrega ao ócio duradouro,
Ajeitando-nos bem as almofadas!
Maldita do amor a bem-aventurança!
Maldita da uva a suma essência!
Maldita a fé e maldita a esperança!
E maldita mil vezes a paciência!"
Fausto, Gothe
Terça-feira, Setembro 1
Putrefação que caminha
Guy de Maupassant, Um caso de divórcio
Terça-feira, Agosto 25
Os olhos abertos e cegos do homem,
“ Eu vivia como todo mundo, vendo a vida com os olhos abertos e cegos do homem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais, como vivemos todos, cumprindo todas as funções da existência, observando e acreditando ver, acreditando saber, acreditando conhecer o que nos cerca, quando, um dia, me dei conta de que tudo é falso.”
Guy de Maupassant, Carta de um louco
Quinta-feira, Agosto 6
A modelo
“ Quem então pode determinar de maneira precisa o que existe de aspereza e o que existe de real na atitude das mulheres? Elas são sempre sinceras numa eterna mudança de impressões. São arrebatadas, criminosas, devotadas, admiráveis, e vis, para obedecer incompreensíveis emoções. Mentem sem parar, sem querer, sem entender, e têm, com isso, e apesar disso, uma franqueza absoluta de sensações e sentimentos que afirmam através de resoluções violentas, inesperadas, inexplicáveis, que desconcertam nossos raciocínios, nossos hábitos de ponderação e todos os códigos egoístas. O imprevisto e a brusquidão de suas determinações fazem com que permaneçam para nós como enigmas indecifráveis. Perguntamo-nos sempre: elas sinceras ou são falsas? ”
Guy de Maupassant, O Modelo
Sexta-feira, Julho 24
Quantas coisas poderíamos ainda descobrir ao nosso redor
“Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, exerce sobre nós, sobre nossos órgãos e, através deles, sobre nossas idéias, sobre nosso próprio coração, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis. Como é profundo esse mistério do Invisível! Não conseguimos sondá-lo com nossos sentidos miseráveis, com nossos olhos que não sabem perceber nem o muito pequeno nem o muito grande, nem o muito perto nem o muito longe, nem os habitantes de uma estrela, nem os habitantes de uma gota d'água... com nossos ouvidos que nos enganam, pois nos transmitem as vibrações do ar em notas sonoras, são fadas que fazem o milagre de transformar em ruído o movimento e por tal metamorfose fazem nascer a música, que torna cantante a agitação muda da natureza... com nosso olfato, mais fraco do que o do cão... com nosso paladar, que mal consegue determinar a idade de um vinho! Ah! Se tivéssemos outros órgãos que realizassem a nosso favor outros milagres, quantas coisas poderíamos ainda descobrir ao nosso redor!”
Guy de Maupassant, O Horla
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