Sexta-feira, Julho 10

Horário Comercial

“Acidade estava povoada por sonolentos acordados que só escapavam realmente ao seu destino nos raros momentos em que, de noite, sua ferida aparentemente fechada se reabria bruscamente. E, despertados em sobressalto, apalpavam então, distraídos, os bordos irritados dessa ferida, redescobrindo num lampejo seu sofrimento, subitamente rejuvenescido e com ele, a imagem perturbada do seu amor. De manhã, voltavam ao flagelo, quer dizer, à rotina.”

 

 Albert Camus, da Obra : A Peste

 

 

Sexta-feira, Junho 26

Os flagelos

“Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contudo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas”

Albert Camus, Filósofo, da obra A Peste

Quarta-feira, Junho 3

Onde termina o telescópio começa o microscópio

 

“ Como podemos afirmar que a criação dos mundos não é determinada pela queda de grãos de areia? Quem conhece os fluxos e refluxos recíprocos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, a repercussão das causas nos precipícios do ser e as avalanches da criação? O menor inseto é importante, o pequeno é grande, o grande é pequeno; tudo está em equilíbrio na necessidade, assustadora visão para o espírito. Entre os seres e as coisas há relações miraculosas; nesse inesgotável conjunto, desde o sol até o pulgão, nada se despreza; uns tem necessidade dos outros. A luz não leva para o firmamento os perfumes terrestres  sem saber o que faz;  a noite distribui a essência das estrelas às flores adormecidas. Todos os pássaros que voam têm preso nos pés o fio do infinito. A germinação se compõe da eclosão de um meteoro e da bicada de uma andorinha quebrando um ovo, e põe lado a lado o nascimento de um verme da terra e o advento de Sócrates. Onde termina o telescópio  começa o microscópio. Qual dos dois tem vista mais longa? Escolham. Uma mancha de bolor é uma plêiade de flores; uma nebulosa é um formigueiro de estrelas. E há idêntica promiscuidade, mais inaudita ainda, entre as coisas da inteligência e os fatos da substância. Os elementos e os princípios se confundem, se combinam, se casam, multiplicando-se uns pelos outros, a ponto que o mundo material e o mundo moral terminem na mesma claridade. O fenômeno se renova infinitamente. Nas grandiosas permutações cósmicas, a vida universal vai e vem em quantidades desconhecidas, tudo rolando no invisível mistério dos eflúvios, usando de tudo, sem perder um único sonho de um sono que seja, semeando, fazendo da luz uma força e do pensamento um elemento, disseminada e indivisível, dissolvendo tudo, exceto esse ponto geométrico, o ego; reconduzindo todas as coisas à alma-átomo; fazendo tudo desabrochar em Deus; confundindo, desde a mais alta até a mais mesquinha, todas as atividades na obscuridade de um mecanismo vertiginoso; ligando o vôo de um inseto ao movimento da terra, subordinando, talvez, ainda que não fosse senão pela identidade da lei, a evolução do cometa no firmamento ao voltear de um infusório numa gota de água. Máquina feita de espírito. Engrenagem enorme cujo primeiro motor é o mosquito e cuja última roda é o zodíaco.”

 

Victor Hugo, Os Miseráveis, O idílio da Rua Plumet e a epopéia da Rua Saint- Denis.

Terça-feira, Maio 26

Cada um sonha com o desconhecido e o impossível segundo a própria natureza

 

 

“ Com efeito, se fosse possível aos nossos olhos de carne contemplar a consciência alheia, julgaríamos com mais segurança a personalidade de um homem mais pelo que sonha fazer do que pelo que realmente faz. O pensamento supõe vontade; o sonho não. O sonho, que é completamente espontâneo, conserva, mesmo quando irrealizável, o perfil de nossa espiritualidade; nada sai mas diretamente e mais sinceramente do fundo de nossa alma que as nossas aspirações irrefletidas e sem limites para os esplendores do destino. Nessas aspirações, muito mais que nas idéias coordenadas, refletidas, sensatas, pode encontrar-se o caráter de cada homem. Nossas quimeras são as que mais se assemelham a nós. Cada um sonha com o desconhecido e o impossível segundo a própria natureza. “

 

 

Victor Hugo, Os Miseráveis, livro quinto, Marius.

 

 

Sábado, Maio 23

O animal perverso por excelência

" O homem no fundo é um animal selvagem e terrível. Nós o conhecemos unicamente no estado subjugado e domesticado, denominado civilização (...)Porém, onde e quando a trava e a cadeia da ordem jurídica se rompem (...) o homem não deve crueldade e intransigência a nenhum tigre ou hiena (...) à inveja, egoísmo de nossa natureza aindase alia um estoque existente de ódio, ira, raiva emaldade reunidos, como o veneno no receptáculo do dente da cobra aguardando apenas a oportunidade para vir à tona (...) qual um demônio libertado a bramir sua fúria produzindo devastação."O ódio constitui de longe o prazer mais insistente; os homens amam às pressas, mas detestam longamente". (...) Gabineau, (...des raceshumaines), denominou o homem l'animal méchant par excellence (O animal perverso por excelência), o que desagrada as pessoas, porque se sentem atingidas; contudo ele tem razão, pois o homem é o único animal que incute dor a outro sem nenhum outro fim a não ser este mesmo. (...) nenhum animal maltrata apenas pormaltratar, mas o homem sim, e isto constitui o caráter demoníaco, muito mais grave do que o simplesmente animal. "

Arthur Schopenhauer, Sobre a Maldade, Parerga e Paralimpomena (p 195 a 197)

Sábado, Abril 18

O caos das quimeras

"A consciência é o caos das quimeras, das ambições, e das tentações;  a fornalha dos sonhos, o antro das idéias de que temos vergonha; é o pandemônio dos sofismas, campo de batalha das paixões. Experimente, em certas horas, penetrar através das faces lívidas de um ser humano que reflete, olhar em seu íntimo, observar sua alma e examinar sua escuridão. Ali, sob o aparente silêncio, há combate de gigantes, como em Homero, batalhas de dragões, e hidras e nuvens de fantasmas como em Milton, visões de espirais em Dante. Que coisa mais sombria é esse infinito que todo homem leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos do seu cérebro e as ações de sua vida!" 

Victor Hugo, Os Miseráveis, Fantine, Livro sétimo

Sua quase semelhança com o merecimento engana muito os homens

"Ter êxito, eis o ensinamento destilado gota a gota pela corrupção que avança. Diga-se de passagem, não há nada mais odioso que o sucesso. Sua quase semelhança com o merecimento engana muito os homens. Para a multidão, êxito é o mesmo que superioridade. O sucesso, sósia do talento, tem um ingênuo que nele crê facilmente: a história. (...) Hoje em dia, uma filosofia quase oficial entrou em intimidade com a história, vestindo-lhe a libré  e fazendo-lhe o serviço de porteiro. Ser bem-sucedido: eis a teoria. Progresso supõe capacidade. Ganhar na loteria: eis o máximo da habilidade. Quem triunfa é bem quisto. Tudo está em nascer com uma boa estrela. Tenham sorte, o resto virá depois; sejam felizes, e o mundo tê-los-á como grandes. Fora cinco ou seis excessões notáveis que constituem o brilho de todo um século, a admiração contemporânea é simples miopia. O que é simplesmente dourado passa por ouro puro. Ser o primeiro a chegar não constitui honra, a não ser que se chegue a ser alguma coisa. É o vulgar e velho Narcizo adorando a própria imagem, aplaudindo a vulgaridade."

Victor Hugo, Os Miseráveis, Fantine, Livro primeiro

Sexta-feira, Abril 17

Caranguejos morais

“ Há almas que, a imitação dos caranguejos, andam para trás, sempre em direção às trevas, retrocedendo na vida à medida que esta avança, empregando a existência em aumentar a própria deformidade, sempre em novas venturas, impregnando-se mais e mais em sua crescente perversidade”

 

Victor Hugo, Os Miseráveis, Fantine, Livro Quarto