sexta-feira, fevereiro 16

Lembranças do mar, do deserto e a eternidade...

" (...) Deserto marulhante , sob a cúpula de um pálido céu cinza, ó ermo impregnado de acre umidade cujo sabor perdura em nossos lábios! Caminhamos, caminhamos sob o solo levemente elástico, salpicado de sargaço e de pequenas conchas. O vento nos envolve os ouvidos, esse vento imenso, vasto, brando, que livremente, sem freio nem maldade, atravessa o espaço e produz em nosso cérebro um ligeiro atordoamento. Marchamos, marchamos, e vemos os nossos pés lambidos pelas línguas espumantes do mar, que é impelido para frente e, fervilhando, torna a recuar. Agita-se a arrebentação. Vaga após vaga, com um murmúrio agudo e surdo, choca-se com a terra, antes de deslizar, sedosa pela praia rasa. Aqui se dá o mesmo como ali e como nos bancos de areia, lá fora, e esse rumor confuso, generalizado, do suave marulho, sobrepuja, em nossos ouvidos, todas as demais vozes do mundo. Bastamo-nos a nós mesmos e de propósito ouvidamos o resto...Ah, cerremos os olhos, abrigados na eternidade! Não! Olha ali! Naquela vastidão glauca, espumante, que, com enormes escorços, se perde no horizonte, surge uma velha. Ali? Que significa esse "ali"? Quão longe? Quão perto? Não sabes dizer. De modo vertiginoso, isso se subtrai a tua avaliação. Para computar a distância que separa esse navio da praia, deverias saber qual seu tamanho. Pequeno e próximo? Grande e longínquo? Tua vista turva-se em dúvida, pois nenhum dos orgãos e dos sentidos que possuis te informa sobre o espaço. Caminhamos, caminhamos...Desde quando? Até onde? Tudo incerto. Nada se modifica, por mais que avancemos. O "Ali" é igual ao "aqui", o passado é idêntico ao presente e ao futuro. Na imensa monotonia do espaço afoga-se o tempo. Onde reina a uniformidade, o movimento de um ponto a outro deixa de ser movimento. Onde isso acontece, já não existe tempo."

Thomas Mann
A Montanha Mágica, pg729

terça-feira, janeiro 30

Meias na janela!

Excelente texto de uma amiga querida.

Dre, um beijo.

...Meias na janela!

Andressa Bello

Um dia cinza, mas não triste. Digamos que mais um dia para se pensar na vida - minha mãe dizia para eu pensar mais, antes de agir... Creio que eu não deveria. Quando penso demais, as bobeiras são menores que os arrependimentos! - fazer uma xícara bem açucarada de chocolate e embaçar com a fervura do leite a janela...

Lembrar das coisas mais idiotas que só o ser humano consegue fazer. Não, porque nós pobres e imploráveis bípedes somos capazes de fazer coisas imbecis até quando estamos dormindo, como o que, por exemplo??? Rolar e cair da cama, falar enquanto se dorme e o pior delas... Roncar!

Mas mesmo com as ações mais criticas, tentamos ser melhor... Comicamente "perfeitos". Sonhamos em ser, em ter e fazer tudo como um sonho... Ah bolinhas de sabão...! Mas pelo menos se chamar de virtuosos... E porque não??? Somos sim (e ponto).

Mas é tão bom sonhar acordado, assim a gente sente cheiro, gostos e ainda vê cores. Deseja ser hoje uma erva venenosa ou algodão doce na mão de uma criança.Ou quem sabe um pena para voar solta por aí ou uma na mão de alguém para fazer cócegas no pé de alguém. Na verdade não deixar de ser, fazer e ter desejos.

Entre um gole e outro, queimando o céu da boca e sentindo que o açúcar da bebida vai ficando mais acentuado, não perdemos os regalos da vida... Deixando o pensamento vagar no quase nada, o que eu acho impossível nunca se pensar nesse "nada”, fazendo projetos e planos - tudo como já havia ensinado minha mãe - vou pendurando minha meia na janela. Afinal, no fim do ano o tão esperado Papai Noel passará e deixará minhas dádivas de esperança para começar um outro ano sem habilidades raras de idiotice... (Ai! Lembrei que tenho que fazer as simpatias de virada de ano... Senão já era um Feliz Ano Novo...!).

terça-feira, dezembro 26

Eu, o vento

Eu, o vento

Mário Nhardes

Que sou calmo e violento, sou vendaval e brisa que a mercê da vida, às vezes sou conforto, às vezes incômodo. Às vezes paz, às vezes caos.

Eu, o vento, que sou incolor e frio, sou calor e sangue, que a mercê da vida, às vezes sou dor, às vezes rotina. As vezes sou morte, às vezes vida.

Eu, o vento, que sou órfão e só, sou carinho e carente, que a mercê da vida, às vezes sou colheita, às vezes plantio. Às vezes sou notado, às vezes esquecido.

Eu, o vento, que sou força e anemia, sou opressor e vítima, que a mercê da vida, às vezes sou vento, simplesmente.

quarta-feira, dezembro 6

Mais de metade da riqueza mundial nas mãos de 2%

Nada de novo... Mas será que isso já não te incomoda?

Abraço,

Estudo do Instituto Mundial de Investigação indica que a riqueza está na América do Norte, Europa, Ásia e Pacífico.

De acordo com um estudo, realizado por um instituto de desenvolvimento das Nações Unidas (ONU) e divulgado esta quarta-feira, mais de metade da riqueza mundial, incluindo propriedades e activos financeiros, está nas mãos de apenas 2% dos adultos do planeta. Para além de os rendimentos globais estarem distribuídos de forma desigual, a distribuição da riqueza é ainda mais distorcida, indica o estudo do Instituto Mundial de Investigação sobre a Economia do Desenvolvimento, da Universidade das Nações Unidas.

«A riqueza está fortemente concentrada na América do Norte, na Europa e nos países de elevados rendimentos da Ásia e do Pacífico. Os habitantes desses países detêm juntos quase 90% do total da riqueza do planeta», revelou o estudo.

O instituto, com sede em Helsínquia, afirmou que o estudo era o primeiro com dimensão mundial sobre esta questão, para a qual há poucos dados disponíveis. «Calculamos que os 2% dos adultos mais ricos do mundo possuem mais da metade da riqueza global enquanto os 50% mais pobres detêm 1%», disse Anthony Shorrocks, director do instituto.

Shorrocks comparou o quadro a uma situação em que num grupo de 10 pessoas, uma teria 99 dólares, enquanto as restantes possuiriam apenas 1 dólar.

Fonte: TVI

segunda-feira, dezembro 4

ESPERAR ...AGUARDAR...

“ ...Aguardar significa adiantar-se, significa sentir o tempo e o presente não como uma dádiva, mas como um mero obstáculo, significa negar e aniquilar o seu valor intrínseco e saltá-los espiritualmente. Dizem que é enfadonho esperar. Mas ao mesmo tempo, e mais propriamente é divertido, porque assim devoramos quantidades de tempo sem as viver e explorar como tais. Poder-se-ia dizer que o homem que apenas espera se parece  com um comilão cujo o aparelho digestivo deixe de passar as massas de comida sem assimilar os valores nutritivos e proveitosos.”

THOMAS MANN , A MONTANHA MÁGICA

 

sexta-feira, novembro 10

Documentários / Indicação

Pessoal,

Acho que boa informação é sempre bem vinda. Principalmente quando oferece subsídios para aprimorarmos nossa visão e opinião sobre coisas relevantes que estão acontecendo a todo o momento a nossa volta, mas que, por conta da correria do dia-a-dia, nem sempre damos a devida atenção. Assisti na última semana a esses dois documentários e acredito que a informação, embora não nova para muitos, seja muito útil.

Que possamos fazer “uso prático” das informações apresentadas. Que possamos usá-las para melhorar nossa atitude e dar nossa pequena, porém fundamental, melhoria para qualidade do mundo em que vivemos.

Abraço,

The Corporation

Sinopse


The Corporation denuncia muitas irregularidades e apresenta diversas vitórias contra essa instituição que se diz invencível.

Cento e cinqüenta anos atrás, as corporações eram pequenas instituições de pouco valor. Hoje elas exercem uma forte influência no dia a dia de nossas vidas. Assim como o Comunismo, a Igreja e a Monarquia em outras épocas, a Corporação tornou-se uma instituição poderosa e capaz de influenciar a história através dos tempos. Neste complexo e divertido documentário, o diretor Mark Achbar e o escritor e roteirista Joel Bakan mostram as repercussões da hegemonia das corporações na sociedade e na vida das pessoas. Documentário inspirado no best-seller de Joel Bakan (
The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power) sobre os poderes das grandes corporações no mundo contemporâneo, que entrevistam presidentes de corporações como a Nike, Shell e IBM, além do Noam Chomsky, Milton Friedman e Michael Moore. Prêmio do público no Sundance Film Festival de 2004.

Uma verdade incoveniente

Sinopse


O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore apresenta uma análise da questão do aquecimento global, mostrando os mitos e equívocos existentes em torno do tema e também possíveis saídas para que o planeta não passe por uma catástrofe climática nas próximas décadas.



sexta-feira, julho 7

Inconstância e Vaidade: por Gregório de Mattos



Bom fim de semana.
Abraço,


"Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo, humildade é certamente espiritual "

Carl Sagan


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
 
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Mattos,
À instabilidade das coisas no mundo.

 


É a vaidade, Fábio, nesta vida                        

Rosa, que de manhã lisonjeada,                    

Púrpuras mil, com ambição dourada,            

Airosa rompe, arrasta presumida.                  

É planta, que de abril favorecida,                  

Por mares de soberba desatada,                    

Florida galeota empavesada,                         

Sulca ufana, navega destemida.                      

É nau enfim, que em breve ligeireza,              

Com presunção de Fênix generosa,                

Galhardias apresta, alentos preza:                

Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa       

De que importa, se aguarda sem defesa        

Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?   

Gregório Mattos, 

Dos Desenganos da Vida Humana


Gregório de Mattos

Gregório de Matos e Guerra nasceu, de família abastada, em Salvador, provavelmente em 1636. Em 1651 foi para Portugal, onde ingressou, no ano seguinte, na Universidade de Coimbra. Formando-se em 1661, casa-se com Micaela de Andrade e ocupa vários cargos na magistratura portuguesa. Enviúva em 1678 e retorna para o Brasil, abatido e desiludido, em 1681. Em Salvador, leva uma vida desregrada, improvisando poemas acompanhados de viola e satirizando os poderosos (Fonte:
www.sontetos.com.br )

http://amantesdasabedoria.blogspot.com